quinta-feira, 30 de junho de 2011

A parede


Era lua cheia. Fazia frio. Estava escuro. Os quatro amigos bebiam vinho barato na casa em construção. Lá pela terceira garrafa decidiram ocupar suas mentes ébrias com o jogo da verdade. Todas as perguntas, claro, giravam em torno de sexo. Buscavam a verdade no sexo, pobres jovens. Ou sábios, quem sabe.
Mateus e Camila sabiam porque estavam ali: para servirem como coadjuvantes na sedução de Ana, cujo alvo era Gustavo. Gustavo e Ana tinham o que pode se chamar de história acidentada. Conheciam-se já há alguns anos. A atração entre eles surgiu com o convívio. Mas, por conta dos descaminhos da vida, passaram muito tempo sem agir a respeito. Até que, talvez um ano antes, protagonizaram alguns encontros casuais. Beijos e amassos, nada mais. Então chegou a noite fria de lua cheia, vinho e jogo da verdade.
É necessário esclarecer ao leitor que Ana era impaciente. Criara o hábito salutar ainda na adolescência de, como ela dizia, “completar o serviço”. Por esta vetusta expressão referia-se a, tendo em mãos (não necessariamente em mãos, caríssimo leitor) um caralho, fazê-lo gozar. Ela nunca conseguira entender por completo suas congêneres que atiçavam, prometiam, e não “completavam o serviço”. A noção de “só na portinha”, para ela, não fazia qualquer sentido. “Só na portinha o caralho!”, esbravejou ela no boteco da esquina uma tarde, já bêbada. E era exatamente isso, claro, que ela não queria na portinha: o caralho.
A impaciência de Ana a levara a agilizar a situação. Afinal, era necessário completar o serviço! Camila, amiga de longa data, sugerira o jogo da verdade. A garrafa rodou no chão de cimento batido da casa em construção. “Mateus pergunta pra Ana!”, disse Camila, eufórica. “Aninham...”, deixou no ar Mateus, que terminava onze entre dez palavras em “am”, como um bom viado carioca. “O que você faz pra conseguir o homem que quer?” Viado adora saber como mulher faz pra conseguir homem, não é verdade, dileto leitor?
“Nossa, que pergunta profunda”, disse Ana, tentando ganhar tempo para pensar no que iria dizer. Ela precisava dar a resposta certeira para garantir o resto da noite. “Ultimamente tenho tentado uma receita nova. Escrevo uma poesia pro cara e uso meu pretinho básico.” Ela havia dado, alguns meses antes, uma bela poesia para Gustavo, sobre a vida e a Vida, ou algo do gênero. Se era bela mesmo, ninguém sabe. Ou melhor, só o Gustavo, que nunca se pronunciou sobre os dotes literários da moça. Já o vestido preto, que a vestia no dia de lua cheia, emoldurando seu corpo bem feito, logo seria jogado displicentemente no chão de cimento da casa em construção. A resposta, portanto, era a correta.
Abriu-se a quarta garrafa de vinho. A lua já estava no meio do céu. As perguntas eram incongruentes aquela altura. E o frio nenhum dos quatro sentia mais. Caso o leitor seja de fino trato, é bom saber que vinho de quinta categoria esquenta o corpo (e o coração) rápido. Mateus precisava ir, trabalharia no dia seguinte. Camila foi atender ao telefone na sua casa, contígua, no mesmo terreno, àquela em que se encontravam, ainda pela metade. Ficaram Gustavo e Ana. Ficaram, mais beijos e amassos. Mas não apenas. Ana, cheia de senso de dever, pensou: “É hoje que eu completo o meu serviço.”
Gustavo, embora rapaz de muitas idéias, deixava a desejar nas ações. E, naquele momento, deixava Ana a lhe desejar. Aflita com a demora, Ana teve que beijá-lo. E o beijo era quente. A língua dura e aventureira dele contradizia sua falta de iniciativa. A espera, o vinho e a lua cheia levaram Ana a afirmar, quase ordenar: “Eu quero que você me coma agora.” Levantaram-se do banco de madeira em que estavam sentados. Para onde iriam? “E a Camila?”, ele perguntou. “Você acha que ela vai voltar...” O tom de Ana trazia implícito um “não” maroto, acompanhado por um sorriso safado. Ele entendeu.
Mas a pergunta ficou na mente dos dois: aonde iriam? Pela falta de dinheiro, pela falta de carro, pela pressa de se possuírem, Ana e Gustavo não pensaram em motel. Mas será que Gustavo não sugeriu essa alternativa porque não dava à Ana o status de “mulher de se comer em motel”? Seria Ana, para Gustavo, merecedora apenas de ar livre, de uma rapidinha no beco? Mas essas perguntas Ana só se colocaria depois. Naquela hora queria Gustavo com urgência. Saíram do cômodo onde estavam, uma espécie de sala, e se encaminharam para o interior da casa. Estavam em um labirinto escuro. Não se enxergava um palmo diante do nariz, enquanto ela o puxava pela mão para lugar nenhum.
Uma réstia de luar entrava pelo buraco em que um dia haveria uma janela. No cômodo havia só chão de cimento e paredes nuas, ainda sem reboco, tijolos aparentes. Ela se encostou na parede mais próxima e o puxou para si. O beijo quente, a língua dura. No escuro, exploraram-se. Ela queria sentir a pele morna dele, que luzia, empatando em alvura com o luar. E a pele dele era macia. A bunda de Gustavo nunca mais se apagaria da memória tátil de Ana. Havia sido esculpida por Oxalá. Epiê babá! Uma bunda dura, máscula, carnuda e de pele macia como o resto do seu corpo. Se víssemos os gestos de Gustavo naquele momento, poderíamos imaginar que ele achava o mesmo dos seios de Ana, porque, depois de acariciá-los com gosto, colocou-os na boca e usou sua língua dura para experimentá-los.
Se a língua era dura, o pau de Gustavo parecia querer sair da própria pele. Depois, comentando o ocorrido com Camila, Ana forjaria a expressão “pau mítico”, e muito teorizaria sobre seus efeitos. O caso é que o pau de Gustavo, entumecido, túrgico, liso, macio, proporcional, era bonito. Um belo pau. Um pau modelo. Enfim, uma lenda urbana, rural, universal... um pau mítico. Masturbar o pau de Gustavo era pouco, Ana queria senti-lo de todas as formas que pudessem agradá-la. Ajoelhou-se aos pés do rapaz, no cimento que a machucaria dentro em pouco, desceu suas calças e cueca com pressa e, segurando-lhe o membro com ambas as mãos, introduziu-o na boca como se fosse o último sonho da padaria. Gustavo foi degustado, é essa a melhor palavra. O esmero com que Ana ia e vinha, lambia, chupava o rapaz, era imprecedente. Um pau mítico merecia um boquete lendário.
Gustavo gemia baixo e suave. Para Ana, os gemidos eram um incentivo e um elogio. Mas ele não podia gozar ainda. “Levanta, eu quero sentir você.”. A voz de Gustavo soou mais grave e doce aos ouvidos de Ana. Em pé, foi empurrada para a parede nua de tijolos e, ali estando, foi desnudada. Lá se ia o pretinho básico, displicentemente, para o chão. Gustavo, meticuloso, tirou sua calcinha, enquanto inseria seu dedo indicador na boca de Ana, que o chupou, lembrando-a de agarrar o pau do moço e começar mais uma vez seus movimentos delicados e firmes. Em questão de instantes, Gustavo moveu seu dedo, enfiando-o vagaroso, tateante, na boceta de Ana. Leitor, ela gemeu, e ele também. Veio dela a ordem: “Quero mais.” O indicador e o médio entraram nela. “Apertadinha.”
Ela havia quase se esquecido dos movimentos de sua mão apertando o belo e mítico pau.  E resolveu: “Eu quero sentir seu pau dentro de mim.” Nesse ponto, nossos heróis se depararam com dois problemas, cada qual afligindo-se com o seu: “Esse cara é bonito demais, deve pegar gente demais, onde está a camisinha?”; “Gostosa, mas alta demais. Como vou comer essa mulher assim, na parede, de pé?”. Falaram ao mesmo tempo: “Você tem camisinha?” “Abre mais as pernas.” Riram. Ele pegou a carteira no bolso da calça caída no chão, tirou a camisinha e rasgou o invólucro com os dentes. Ela retirou a borracha com cheiro de uva (!) da mão dele, abaixou-se, colocou na ponta redonda e lisa do pau, e começou a desenrolá-la com a boca. Suspirou Gustavo, enalteceu-se Ana. As mãos dele repousavam nos cabelos dela, fazendo-lhes carícias, como a uma criança.
Quando ela se levantou, mais uma vez foi empurrada na parede. Ele tentou penetrá-la, mas a posição era ingrata. Um desejo interrompido. Ele a virou de costas brutalmente. “Abaixa”. Ela colocou as mãos na parede, dobrando-se, exibindo-se para ele. Então sentiu a dureza do membro dele abrindo-a com calma. “Você é tão apertadinha...” ela sorriu, para ninguém, e retribuiu entrando na cadência lenta das investidas dele. Ana esqueceu-se do escuro, dos tijolos ásperos que marcavam-lhe as palmas, e gemeu alto. “Mete, Gus.” Nem pedido, nem sugestão: ordem. “Eu quero sentir seu pau até o talo.” Os movimentos dele se aceleraram, e os rebolados dela também.
Ela nunca havia gozado sem ter o parceiro olhando para o seu rosto. Mas talvez dessa vez fosse diferente. Não foi. Debruçando-se sobre ela, agarrando seus seios com força, ele a levantou. Posição impossível. “Eu quero te comer no chão.” O primeiro pedido dele não podia ser recusado. Ela cobriu o chão com o tal pretinho básico e se deitou, sentindo sob si o cimento frio. Condoeu-se dele, que teria que se apoiar nos joelhos e pensou “Foda-se”. Fodam-se os joelhos de Gustavo. Ela o queria em cima. E para aumentar ainda mais o desconforto do moço, colocou sobre os seus ombros as pernas abertas. Queria sentir todo aquele pau dentro dela. Em instantes, sentiu o saco batendo na região anatomicamente conhecida como terra de ninguém. Ele invadia lugares recônditos, molhados e escuros.
Ela sentiu se aproximar o turbilhão que precedia o orgasmo. Aumentou o requebrado no pau de Gustavo, segurou firme aquela deliciosa bunda, controlando os movimentos dele... e gozou. Ronronava como uma gata. Ele, como a cumprimentando pelo orgasmo, disse, com voz rouca: “Gostosa.” Mas ele não parou. Ela já havia baixado as pernas e ressuscitava lentamente daquela grande pequena morte. O torpor começava a deixá-la quando decidiu: “Me come de quatro.” Esperançoso, ele perguntou: “Vai me dar o cuzinho.” Ela riu, debochada: “Claro que não.” O “cuzinho” era uma história totalmente diferente.
Sentiu-se protegida pela caridosa luz do luar, que não permitia que ele a visse naquela posição. Embora a excitasse estar de quatro, não lhe era de todo agradável ficar onde não estava em controle. Mas queria sentir as mãos dele agarrando-lhe a cintura. E foi o foi o que ele fez, tentando discernir no escuro os contornos sinuosos de Ana. Apurou a vista e viu o que queria: uma bunda enorme e bem moldada, sob a qual se perdia seu membro, que penetrava cadenciado as partes da moça. Assim, pensando que Ana estava submetida ao seu controle, ele gozou. E ela ouviu o som suave, mas eloqüente, que se desprendeu dos lábios de Gustavo. Ele gozara.
Os joelhos doloridos não a incomodaram quando ele, mais uma vez, debruçou-se sobre ela e lhe ofertou um beijo ao pé do ouvido. Ela se deitou no cimento, e ele, ao lado dela, abraçou-a. Ambos ignoraram as irregularidades do chão, e o próprio fato de que deitavam no chão, em uma casa em construção. Ali ficaram por dez minutos. Ou teriam sido duas horas? “Eu acho melhor a gente ir. A Camila vai desconfiar.” Disse, ingênuo, Gustavo. Vestiram-se, sem trocar palavra.
No improviso de sala, restava ainda metade da quarta garrafa de vinho barato. Em pé, beberam. “Você é tão lindo.” “E você é macia.” Saíram, ela comentou o luar, com alguma poesia. Despediram-se com um beijo bom. Ela escreveria um poema a respeito, inspirada pela lua. Ele colecionou mais uma figurinha. Encontrar-se-iam novamente, em meio a figurinhas e poesias?

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